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Qual é o preço do seu tesão?

  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Entre repressão, compulsão e a liberdade de escolher


Existe uma ideia bastante difundida de que, quando falamos de sexualidade, o problema está sempre na falta.


Falta de desejo. Falta de libido. Falta de prazer.

Falta de conexão com o corpo.


E, de fato, viver desconectado do próprio desejo pode ser muito doloroso. Mas existe um outro lado dessa conversa que quase não fazemos.


E quando o desejo deixa de ser uma experiência que você sente e passa a ser uma força que controla você?


Qual é o preço de uma libido que não encontra direção?


Antes de qualquer coisa, é importante fazer uma distinção: ter uma libido intensa não significa ter um problema. Pessoas têm desejos diferentes, frequências sexuais diferentes e formas diferentes de viver a própria sexualidade.


O problema não está necessariamente na quantidade de sexo, de fantasias ou de desejo.


A questão começa quando existe perda de escolha.

Quando a pessoa percebe que está repetindo determinados comportamentos mesmo quando eles entram em conflito com seus valores, seus relacionamentos, sua saúde, seu trabalho ou aquilo que ela própria deseja para a sua vida.


É aí que precisamos parar de perguntar apenas:

“Quanto sexo você está fazendo?”

E começar a perguntar:

“Qual função esse sexo está cumprindo na sua vida?”


Quando o desejo vira uma forma de fuga

O corpo não mente com a mesma facilidade que a nossa narrativa.


Às vezes, a pessoa acredita que está simplesmente “com muito tesão”, mas, quando começa a escutar o próprio corpo, percebe que existe outra coisa acontecendo:

Ansiedade. Solidão. Frustração. Necessidade de validação. Medo de rejeição.Tédio.

Dificuldade de lidar com determinadas emoções.


E o sexo pode se tornar uma maneira extremamente eficiente de mudar o estado interno.


Por alguns instantes, existe intensidade. Existe estímulo. Existe presença. Existe descarga.


O problema é quando essa passa a ser a principal ferramenta que a pessoa conhece para lidar com aquilo que sente.


Nesse momento, talvez não estejamos falando apenas de desejo. Estamos falando de regulação emocional através da sexualidade. E essa diferença é fundamental.


Porque talvez a pergunta não seja:

“Por que eu quero tanto sexo?”

Talvez seja:

“O que acontece dentro de mim quando eu não tenho sexo?”


Essa pergunta pode abrir portas que nenhuma quantidade de estímulo consegue abrir. O corpo como lugar de escuta


No meu trabalho, eu parto de uma compreensão muito simples: o corpo participa da nossa história.

Ele registra tensão, defesa, desejo, medo, prazer, contenção e disponibilidade.


E muitas vezes aprendemos a viver a sexualidade apenas a partir da cabeça.


“Eu quero.” “Eu não quero.”

“Eu deveria querer.” “Eu preciso conseguir.”

“Eu preciso performar.” “Eu preciso chegar lá.”


Mas existe uma dimensão anterior a tudo isso:

O que o seu corpo está dizendo?

Você consegue perceber quando o desejo começa a surgir?

Consegue diferenciar desejo de ansiedade?

Excitação de necessidade de validação?

Prazer de compulsão?

Presença de fuga?

Essa percepção não acontece apenas pensando sobre o corpo. Ela precisa ser construída através da experiência corporal.


É nesse lugar que práticas de consciência corporal, respiração, presença, escuta emocional e os princípios de tradições como o Tantra podem oferecer caminhos interessantes.


Não para transformar o desejo em algo místico ou para justificar qualquer comportamento.

Mas para desenvolver uma relação mais consciente com aquilo que sentimos. Nem repressão, nem obediência Existe uma armadilha quando falamos sobre sexualidade: imaginar que existem apenas duas possibilidades.


Ou você reprime.

Ou você libera.

Ou você controla o desejo.

Ou você “se permite tudo”.


Eu não acredito que a maturidade sexual esteja em nenhum desses extremos.

Repressão não é liberdade. Mas impulsividade também não é.



A repressão diz:

> “Eu não posso sentir isso.”


A compulsão diz:

> “Se eu sinto isso, preciso fazer alguma coisa.”


A consciência abre uma terceira possibilidade:

> “Eu posso sentir isso sem precisar obedecer imediatamente. Isso é regulação.


É conseguir permanecer próximo da própria experiência sem ser arrastado por ela. É perceber o desejo, respirar dentro dele, escutar o que existe por trás dele e então escolher. E talvez essa seja uma das formas mais profundas de liberdade sexual.


Você não precisa diminuir o seu tesão


Existe uma diferença entre diminuir o desejo e ampliar a capacidade de escolha. Eu não acredito que o objetivo seja transformar pessoas desejantes em pessoas “controladas”. Muito pelo contrário.

O desejo é uma potência.

Mas potência sem consciência pode se transformar em repetição. E repetição sem escolha pode se transformar em aprisionamento.


Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja “como controlar minha libido?”, mas:


“Como posso desenvolver repertório suficiente para decidir onde colocar essa energia?”


Porque o desejo pode alimentar intimidade.

Pode alimentar criatividade.Pode alimentar presença.

Pode alimentar conexão. Pode revelar necessidades que estavam escondidas. Pode ser vivido no encontro com outra pessoa, consigo mesmo, com o próprio corpo e com a própria vida. O problema não é ter energia. É quando você não consegue mais decidir para onde ela vai.


Escutar antes de agir


Uma das práticas que considero mais importantes é criar um pequeno espaço entre sentir e agir.

Sentiu desejo?

Pare. Respire. Perceba.


Onde isso aparece no corpo?

É expansão ou tensão?

Existe prazer ou urgência?

Existe curiosidade ou necessidade?

Você está indo em direção a alguma coisa ou tentando fugir de alguma coisa?

E, principalmente:


“Se eu não precisasse agir agora, o que eu perceberia?”


Às vezes, a resposta é: “eu realmente quero”.

Ótima. Então existe escolha.



 
 
 

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Luciana Garima

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